terça-feira, outubro 02, 2012

ESTRUTURA PSICÓTICA: ETIOLOGIA E SINTOMAS


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Freud, ao relatar a experiência com um dos netinhos de 18 meses, registra que no início da fase primitiva, a criança e a mãe são fusionadas. Pouco a pouco irá iniciando o processo da diferenciação. Ele ilustrou essa descrição após assistir à criança brincando de aparecer e desaparecer com um carretel amarrado a um cordão “FORT DA”: é a magia de tornar “presente” o “ausente”, o início do processo de simbolização. No entanto, para ele, a capacidade de representação mental é individualizada.

A criança, em sua fase primitiva, é atravessada pelo desejo e pela palavra do outro. Para Freud, no primeiro tempo de Édipo, a criança fusionada à mãe exclui o pai. No segundo tempo, vem a angústia de castração. O pai, que foi reconhecido como parte da triangulação, é visto como repressor, ciumento e rival, o que provocará muita angústia ao filho.

No entanto, é a representação paterna que exerce função estruturante e fundadora do sujeito psíquico. Nesse lugar, se a metáfora paterna não for introjetada e registrada, seja pela forclusão, pelo procedimento violento ou negação da paternidade, advirá um caos, um vazio na psique do filho.

Para Freud, no processo a seguir, se os relacionamentos forem normais, com a triangulação mãe/pai/filho(a), a criança estará ultrapassando a fase do Édipo e desejará ser como o pai. Mas que significado dessa figura estará internalizado? Bom ou mau? Será que a mãe o forcluiu ou concedeu a esse pai o direito de exercer a paternidade, uma vez que, mesmo em sua ausência, poderá ser evocado? Segundo Freud, “as experiências dos cinco primeiros anos de uma pessoa exercem efeito determinante sobre sua vida” (FREUD, 1976, p.149).

De acordo com Laplanche e Pontalis, quando os significantes forem forcluídos (termo de Lacan), não serão integrados ao inconsciente do sujeito. Não retornarão do interior, mas em forma de alucinação. O próprio surto psicótico poderá ser um esforço de reconstituição dos fragmentos do ego. Processo esse que nos foi bem ilustrado em uma das aulas de Psicopatologia II, quando trabalhamos a partir da análise do filme EQUUS.

O enredo do filme nos fez ver uma mãe, um filho e o pai forcluído, ou anulando-se a ele próprio. Ela, evitando contatos sociais para o filho, tinha uma verdadeira obsessão religiosa, seu assunto preferido para conversar, inclusive mencionando que os olhos de Deus estão nos vigiando. Ao invés de permitir a intercessão do marido, enaltecia o seu irmão, preferindo manter o filho infantilizado e submisso. Todos esses fatores criaram no jovem o quadro e o ambiente propícios ao surto psicótico, o que, em decorrência, aconteceu na primeira investida de individuação.

Esse tipo de sintoma, para Pontalis e Laplanche, seria uma tentativa secundária de restaurar os laços objetais, uma vez que no psicótico há um vazio de significação, uma negação da dor, um caos existencial e uma realidade interna dividida. “A causa precipitadora de um surto psicótico é ou que a realidade tornou-se insuportavelmente penosa ou que os instintos se tornaram extraordinariamente intensificados” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 231).

Em um sujeito psicótico, mesmo que tenha sido negado ao pai intervir na triangulação amorosa, para Freud não implica não ter uma história de certa forma edípica. A essência da questão é que esta vivência foi muito fragilizada, de forma a não produzir uma metáfora do tipo neurótico estruturante.

Como resultado, advirá um ego imaturo, sem a internalização simbólica de limites. Quanto à diferenciação, pelas atitudes evidenciadas denota-se um sujeito em estado psíquico enfraquecido, desestruturado e /ou dominado pelo desejo da mãe.

Independentemente dos fatores orgânicos, tanto o fator educativo como o genético e o de relação materna primária revelam-se, para Bergeret, como fatores de extrema importância na estruturação da psique infantil. “Uma mãe hiperprotetora, estando sempre presente, não permitindo à criança alcançar o registro do desejo. Uma mãe ausente que induz à espera penosa e as representações do desejo” (BERGERET, 2004, p.169).
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