quarta-feira, outubro 17, 2012

Alícia Fernandez - Os idiomas do Aprendente

INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA NA ESCOLA

Pensar e atender a Diversidade e a Diferença como critérios de Promoção de Saúde em Instituições Educativas é um desafio. (Beatriz Rama Montaldo)

A psicopedagogia dirige-se para a relação entre a modalidade ensinante da escola e a modalidade de aprendizagem de cada aluno, e a este como aprendente e ensinante em seu grupo de pares.

Esse sujeito autor constitui-se quando o sujeito ensinante e aprendente, em cada pessoa, pode entrar em um diálogo. “Quando é que o sujeito ensinante entra em um diálogo?” Quando se autoriza (se lhe for permitido) mostrar/mostrar-se naquilo que aprende. Interagir com o outro, mostrar-lhe o que sabe. Às vezes, pode-se conhecer o que se sabe somente a partir de mostrar ao outro.

A psicóloga uruguaia e terapeuta de aprendizagem, Beatriz Rama Montaldo (2000), diz:
... Pensamos que nosso acionar institucional teria como premissa básica CRIAR as estratégias de intervenção em relação ao ensinante-aprendente – na trama vincular intra-subjetiva, intersubjetiva e transubjetiva – facilitadoras do processo de crescimento e de um desenvolvimento harmônico. Acionar
no singular, no plural, no grupal...
... devemos pensar em criar as condições para que “esse ambiente facilitador” (D. Winnicott) transforme-se em gerador de potência para a saúde. Como é possível pensar em criar as condições para que a patologia
não se instale ou, uma vez instalada, possibilitar que o saudável possa “ser mostrado” e “fazê-lo andar”?
Nós respondemos: Será um desafio concordar com as novas estratégias que estimulem, desenvolvam, possibilitem as condições para que se instale a saúde...

A intervenção psicopedagógica nas escolas deve dirigir seu olhar simultaneamente para seis instâncias:
– ao sujeito aprendente que sustenta cada aluno;
– ao sujeito ensinante que habita e nutre cada aluno;
– à relação particular do professor com seu grupo e com seus alunos;
– à modalidade de aprendizagem do professor e, em conseqüência, à sua modalidade de ensino;
– ao grupo de pares real e imaginário a que pertence o professor;
– ao sistema educativo como um todo.

E, nessas seis instâncias, deve dirigir um olhar para a circulação singular de conhecimento que se estabeleceu entre os diversos personagens e o conhecimento.


INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA COM PROFESSORES EM UMA ESCOLA

Cena 1
A professora María disse à psicopedagoga Teresa que seu aluno João tem um problema.
Professora María: “Tenho um menino que você precisa ver, porque algum problema ele tem”(María mostra-se angustiada).
A psicopedagoga Teresa...
Deixaremos a cena inconclusa para pensar na posição da psicopedagoga.

Qual será um posicionamento adequado para Teresa situar-se a fim de criar uma escuta psicopedagógica e, em conseqüência, uma intervenção eficaz?

Tentarei pensar com vocês não tanto o que a psicopedagoga deve dizer, mas em que posição colocar-se para poder pensar. A partir daí, poderá construir uma intervenção adequada, livre e autora.

Proponho que realizemos uma leitura psicodramática da situação.
A primeira cena tem, pelo menos, três personagens:
a) a professora;
b) a psicopedagoga;
c) o aluno.

Quando a professora disse “Tenho um aluno com problemas”, Teresa instalar-se-ia em uma posição que não permitiria uma leitura psicopedagógica se começasse a perguntar sobre João desde o primeiro momento. Ou seja, se ela fosse omissa a María, com sua angústia, suas possibilidades e suas dificuldades,
com sua responsabilidade de ensinar.

Às vezes, os psicopedagogos, ou os psicólogos nas escolas, aprisionados também pela exigência de eficiência, tentando “ajudar” o aluno em questão, esquecem o professor e, então, respondem “Como se chama seu aluno? Vou vê-lo e estudá-lo”.
Em lugar de perguntar-se “João tem um problema que devo descobrir”,

Teresa precisa responder a si mesma “Eu, Teresa, tenho um problema: como fazer para que María, professora, reconheça que tem um problema em relação a João”.

A intervenção da psicopedagoga deverá partir de seu próprio espaço de autoria de pensamento e estará direcionada a abrir um espaço de autoria na professora. Para tanto, será preciso escutá-la, fazendo com que María escute a si mesma, reconheça-se importante, descubra o quanto pode ajudar João se o olhar de uma maneira diferente.

Muitas vezes, os psicopedagogos queixam-se dos professores e fazem com eles o mesmo que pensam que os professores não devem fazer com os alunos.

Dizem aos professores que não devem queixar-se dos alunos, mas queixam-se dos professores.

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