segunda-feira, fevereiro 27, 2012

“ Palavras de Françoise Dolto”- psicóloga infantil

Seu conhecimento como psicanalista, cuja genialidade consistiu em levar os limites da intervenção psicanalítica até o primeiro dia de vida da criança, suas intuições terapêuticas, seu trabalho pedagógico voltado tanto para os pais quanto para os profissionais, seu combate em favor da "causa das crianças" fazem de Françoise Dolto (1908-1988) uma referência obrigatória na abordagem da primeira infância.
Uma das principais contribuições de Françoise Dolto foi a de reconhecer a criança, desde a mais tenra idade, como um sujeito de si mesma, de acordo com a psicanálise, que considera o paciente como sujeito de seus desejos inconscientes.
"Nosso papel como psicanalista, dizia, não é o de desejar algo para alguém, mas de ser aquele graças a quem ele pode chegar até seu desejo."

Como médica que desenvolveu uma cura analítica, ela escutava portanto pessoas de verdade, considerando que as crianças de um ano dispõem, à sua maneira, de uma plena inteligência das coisas. Ao fazer isso, ela as retirava do status social de infantes, etimologicamente os que não têm direito à palavra. "É escandaloso para o adulto, dizia ainda, que o ser humano no estágio da infância seja seu igual." Para Freud, o sonho, mas também todo sintoma patológico, é uma linguagem a ser decifrada. Para Françoise Dolto, o ser humano é um ser de linguagem, antes mesmo de saber falar. No ventre da mãe, no feto, a função simbólica já está sendo operada. Essa certeza permitiu-lhe escutar e ouvir o que faz sentido para o corpo do bebê.
Para sua grande surpresa, ela descobriu que uma palavra dirigida a um recém-nascido que ainda não fala pode ter efeitos terapêuticos. Foi por isso que sempre sugeriu aos pais que falassem com a criança de tudo o que lhes dissesse respeito, de "falar a verdade", desde o seu nascimento.
Porque o pior para um ser humano é o que fica privado de sentido: o que não passou pela linguagem.

Para Françoise Dolto, a concepção é um encontro a três e não apenas a dois: "Sozinha, cada criança se dá a vida pelo desejo de viver."
O fato de o embrião viver e a mãe não o abortar comprova que há um desejo compartilhado de vida. Desde o momento da concepção, o feto é portanto, um ser humano em desenvolvimento. Ele está em comunicação inconsciente com a mãe.
Os estados emocionais desta, assim como os acontecimentos que ocorrerem, marcam a sua vida psicológica. Uma mãe que "esquece" que está grávida pode dar à luz uma criança que se revelará mais tarde psicótica.

Ajudar a criança a crescer .

Françoise Dolto descreve o desenvolvimento da criança como uma série de "castrações": umbilical com o nascimento, oral com o desmame, anal quando começa a andar e aprender a usar o banheiro. A cada vez, a criança deve separar-se de um mundo para se abrir a um mundo novo. Cada uma dessas castrações é uma espécie de provação da qual a criança sai mais crescida e humanizada. A responsabilidade dos pais é ajudá-la a superá-las com sucesso.
Com o corte do cordão umbilical, o bebê renuncia ao estado de fusão com a mãe e ganha o mundo aéreo.
O aleitamento ou a mamadeira não representam apenas a satisfação de uma necessidade alimentar, porque o recém-nascido também é um ser de desejos próprios.
Ele é também um momento de contato corporal e de comunicação. É por isso que "precisamos castrar a língua do mamilo para que a criança possa falar", declara Françoise Dolto.
Ao renunciar ao seio e ao leite, o bebê renuncia novamente a um estado de fusão com a sua mãe. Com a distância e a liberação da boca, ele adquire a possibilidade de falar. Nessa época, mais ainda do que qualquer outra, a mãe deve dar à criança um banho de linguagem.
Com o caminhar, a criança afasta-se da mãe para descobrir o espaço. É necessário mais uma vez que ela não tenha rédeas nessa primeira autonomia.
O aprendizado do uso do banheiro deve ser feito quando a criança já adquiriu controle muscular suficiente, e não em uma idade pré-estabelecida e por constrangimento.
Nesse período, os pais começam a apresentar proibições para proteger a criança, e a primeira lei é a de não prejudicar outras pessoas e de não matar.
Se o fazem de maneira sádica, ou seja, apenas opressiva, não ensinam à criança a transformar seus impulsos agressivos em desejos socializados.
Ao longo da vida, esses impulsos apenas repelidos serão descarregados na primeira oportunidade, com uma crueldade sempre infantil.
Fonte: http://entrevista.2004.francoiasedolto
P.S. Para quem atua em psicopedagogia, é importante ler: "A criança do espelho', da Françoise Dolto.
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