quinta-feira, maio 19, 2011

JOGO DE AREIA: VIVÊNCIAS MARCANTES DE QUERER BEM NA VIDA PROFISSIONAL

1 INTRODUÇÃO
O jogo de areia ou Sandplay é um método investigativo de intervenção não verbal que pode ser utilizado com crianças e adultos, tanto em processos psicoterápicos e psicodiagnóstico quanto em intervenções educativas, assim como realizar interfaces com outras teorias e técnicas, assumindo um caráter transdisciplinar.
Concebido inicialmente no contexto da psicoterapia por Dora Kalff em 1957, tendo com base a técnica da psicanalista inglesa Margareth Lowenfeld, o jogo de areia parte do pressuposto de que o processo de cura se dá pela ação de mecanismos auto-reguladores que se expressam paralelamente nos planos físico e psíquico. Caracteriza-se, ainda, como um instrumento criativo para apoiar as intervenções que buscam o desenvolvimento humano, o processo de individuação (MACHADO et al, 2001; BAZHUNI e SANT’ANNA, 2006, CAVALCANTI, 2008).
Aliando alguns aspectos da técnica de Lowenfeld à psicologia analítica de C. G. Jung, Kalff percebeu que seus pacientes ao construir cenas com miniaturas dentro de uma caixa com areia podiam expressar conteúdos ainda inconscientes em uma linguagem pré-verbal. Ou seja, o contato com a dimensão simbólica profunda do inconsciente (a psique humana) — concretizada através do jogo — impulsiona a energia psíquica em direção à cura e ao desenvolvimento pleno das potencialidades do indivíduo (MACHADO et al, 2001).
O jogo de areia é bem difundido em vários países. No Brasil, sua divulgação “teve início com a publicação do livro de Estella Weinrib – Imagens do Self: O processo terapêutico na caixa-de-areia, em 1993, dez anos depois de sua primeira publicação nos Estados Unidos”. Outra referência para o desenvolvimento do jogo de areia no Brasil é Ruth Ammann, que esteve no país em 1999 e 2002 (CAVALCANTI, 2008, p.8).
Desde então, o jogo de areia tem despertando o interesse de psicólogos, professores e pesquisadores, como é o caso da base de pesquisa Corporeidade e Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (BACOR-PPGED/UFRN), que o utiliza, desde 2005, como instrumento criativo para apoiar as intervenções que buscam o desenvolvimento humano, na perspectiva vivencial no processo ensino-aprendizagem, sob a ótica de uma educação transdisciplinar (CAVALCANTI, 2008)
Desse modo, busca-se neste trabalho abordar a fundamentação teórica do jogo de areia e caracterizar as vivências marcantes de querer bem na vida profissional do autor por meio da sua expressão nesse jogo.

2 O JOGO DE AREIA
A idéia central do jogo de areia, conforme inicialmente proposto por Kalff, é a de que ao construir ludicamente uma cena dentro da caixa de areia, sem o estímulo de qualquer verbalização, conteúdos inconscientes podem ser expressos e tornados conscientes. “Para Kalff, a eficácia do jogo está em proporcionar o que denominou de um ‘espaço livre e protegido’”, que favorece o movimento compensatório proveniente do self e a cura psíquica. (KALFF, 1980 citado por MACHADO et al, 2001, p.95).
Livre, porque o paciente tem liberdade para criar sem regras fixas, utilizando-se das miniaturas e da areia para sua expressão, e protegido, porque a caixa oferece um limite que de certa forma contém o fluxo expressivo dentro de um enquadre e também, pela participação empática do terapeuta que promove confiança, cumplicidade e segurança ao paciente (MACHADO et al, 2001).

Ao expressar suas vivências por meio do jogo, o indivíduo entra em contato com uma dimensão profunda da psique de maneira lúdica, dramatizando seus conflitos inconscientes no mundo exterior. A ação lúdica e a cena confeccionada fogem da sintaxe do discurso racional, oferecendo imagens que possibilitam o acesso aos conteúdos inconscientes. (MACHADO et al, 2001, p.95).

O instrumento para a vivência do jogo de areia, consiste em uma caixa medindo 75 x 50 x 7 cm aproximadamente, tendo o seu fundo e lados pintados na cor azul (ou revestida internamente com plástico azul), preenchida com areia até a metade. Além da caixa com areia utilizam-se miniaturas representativas de diversas dimensões da realidade: animais, objetos, carros, figuras humanas, utensílios domésticos e elementos da natureza e da vida urbana, tudo para fazer fluir a imaginação. Implementos para modelagem da areia também devem ser utilizados (BAZHUNI e SANT’ANNA, 2006, CAVALCANTI, 2008).
O jogo de areia inicia-se com o contato da areia pelo participante, o que favorece a modulação do estado mental e a configuração de fantasias que podem resultar na construção de uma cena na forma que lhe aprouver, usando as miniaturas.

Devido ao seu caráter fluido, a areia favorece uma abertura para o inconsciente e ao mesmo tempo oferece uma possibilidade de formatação das imagens que surgem do inconsciente como reações imagéticas à determinada situação psíquica (BAZHUNI e SANT’ANNA, 2006, p.90).

As miniaturas são utilizadas como facilitadoras da expressão do estado mental do participante, ou seja, elas assumem a função de personificar no espaço livre e protegido os conteúdos do inconsciente que afloram livremente de forma concreta, fazendo com que o jogo de areia funcione como uma ponte entre o mundo inconsciente e a realidade externa.
Após a construção dos cenários, em outro momento, faz-se, em conjunto com o participante, a interpretação do que fora construído, fazendo as ligações entre os cenários e os fatos reais da vida interior (psíquica) e exterior do participante. Esta exibição faz com que o participante tenha um contato concreto com seu inconsciente, reforçando e possibilitando a mudança, a transformação (LEVY e HORSCHUTZ, 2009).

Ao expressar seus conteúdos por meio do jogo, o indivíduo entra em contato com uma dimensão profunda da psique de maneira lúdica, dramatizando seus conflitos inconscientes no mundo exterior (MACHADO et al, 2001, p.95)

A terapia do jogo de areia é indicada para todas as idades e sua principal característica é o acesso mais rápido ao inconsciente, possibilitando, dessa forma, em muitos casos, o abreviamento do processo de cura, uma vez que possibilita o aprofundamento da análise do participante. Também é indicada para pessoas introvertidas, agressivas, depressivas, tensas, hiperativas ou com dificuldades ou comunicação (LEVY e HORSCHUTZ, 2009).

A aplicação desta técnica apresenta as seguintes vantagens: diminuição da ansiedade, a possibilidade de expressar os impulsos agressivos, o aumento da segurança e da estabilidade interna, proporcionadas pela estrutura estável, livre e extremamente acolhedora que esta prática oferece ao paciente, além da diminuição considerável dos sintomas em um curto espaço de tempo, em inúmeros casos (LEVY e HORSCHUTZ, 2009).

Na BACOR-PPGED/UFRN, o jogo de areia tem sido utilizado como estratégia vivencial humanescente no processo de ensino-aprendizagem da pós-graduação em educação numa perspectiva transdisciplinar, tendo como pressupostos os estudos da Corporeidade que se associa à Teoria da Autopoiese de Maturana e Varela e à Teoria dos Arquétipos de Jung. Nas palavras de Kátia Cavalcanti “jogar é viver e viver é jogar. Joga-se com o corpo, com a alma!” (CAVALCANTI, 2008, p.10).

3 JOGO DE AREIA: VIVÊNCIAS MARCANTES DE QUERER BEM NA MINHA VIDA PROFISSIONAL
No segundo encontro vivencial ocorrido no dia 15 de setembro, a professora Kátia Cavalcanti, depois de realizar uma dinâmica com o intuito de sintonizar os participantes às energias transcendentes do local, nos convidou a todos a externar as nossas vivências marcantes de querer bem na vida profissional por meio do jogo de areia.
Para tanto, disponibilizou a cada um dos participantes uma caixa de areia. Estes, munidos de areia, miniaturas e implementos para modelagem, passaram a construir seus respectivos cenários, de acordo com o tema proposto.
O meu querer bem na vida profissional foi representado por três cenários (figura 1).


Jogo_de_areia_6
 Figura 1: Meu querer bem na vida profissional

1º Cenário: Minha primeira aula numa Faculdade em Manaus/AM. Foi a minha primeira experiência com o nível superior de ensino. Estava tremendamente nervoso e ansioso, não por desconhecer a disciplina que iria ministrar nem pela falta de experiência docente (já atuava como professor há vinte anos), mas pelos alunos, que presumia estarem todos atuando na área do curso (Contabilidade).
Fui bem acolhido e, por conseguinte, não foi difícil conquistar a todos, fazer amizade, respeitando e tratando a todos os alunos com afetividade. Descobri, nesse primeiro contato, que nem todos atuavam na área. Ao longo do semestre, numa perfeita simbiose, fomos juntos aprendendo, afinal, “saber ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996, p.47).
No final do semestre pude constatar que não passei despercebido pelos alunos e, por conseguinte, a satisfação do dever cumprido.

É digna de nota a capacidade que tem a experiência pedagógica para despertar, estimular e desenvolver em nós o gosto de querer bem e o gosto da alegria sem a qual a prática educativa perde o sentido (FREIRE, 1996, p. 142).

2º Cenário: Visita, como Diretor de Ensino, a uma escola numa cidade do interior do Amazonas. Era a primeira vez que iria ao município e na escola precisaria contornar alguns conflitos e dar a conhecer as diretrizes de ensino enquanto Instituição. Embora a viagem tenha ocorrido em um avião minúsculo de aparência decrépita, foi possível contemplar a beleza que o Amazonas representa com suas estradas (de rios), seus carrões (barcos). Com tanta água era possível imaginar a riquezas de espécies de peixes que temos na região.
Como não poderia ser diferente, conheci a escola e as angústias de quem a faz. Em seguida, pude esclarecer as medidas que estávamos tomando, enquanto Instituição, para amenizar aquela situação (aquisição de mobiliários, ônibus, contratação de professores, etc.) e os procedimentos que adotamos nas outras unidades especificamente em relação às atividades de ensino. Obviamente não resolvi todos os problemas, mas algumas medidas foram tomadas em conjunto. Por outro lado, pude constatar a importância de saber escutar no processo de comunicação. Por isso concordo com o professor Paulo Freire quando afirma:

Se, na verdade, o sonho que nos anima é democrático e solidário, não é falando aos outros, de cima para baixo, sobretudo, como se fôssemos os portadores da verdade a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles. Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas condições, precise de falar a ele. (FREIRE, 1996, p.113, destaque do autor).

e com Moraes e Torre quando dizem: “Quem põe o coração naquilo que faz, consegue recursos aonde os incapazes se dão por vencidos” (MORAES e TORRE, 2004, p.14).

3º Cenário: Visita técnica (aula de campo) ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/AM), com uma turma de alunos de ensino médio. Nessa visita pudemos contemplar a ciência a serviço da região e, por que não dizer, da natureza. Entre animais e espécies florestais, vimos criadouros de quelônios e de peixe-boi. O objetivo era despertar nos alunos um olhar matemático da natureza, ou seja, constatar que embora não percebamos, a natureza é matemática pura, com suas geometrias e simetrias. Dessa forma, os alunos “descobriram” que grande parte do que vemos em sala de aula nas aulas de Matemática (razões, proporções, semelhanças, funções, geometria, etc.) se expressa na natureza.
Hoje vejo que essa visita representou uma forma de, parafraseando Maria Cândida Moraes, (re)encantar o ensino da Matemática, uma vez que o nosso mundo é a nossa visão de mundo, da forma com o percebemos, e não deve ficar restrito apenas ao ambiente de sala de aula. Até porque,

Sabemos que as nossas maneiras de observar o mundo, o modo com que nos relacionamos uns com os outros, a nossa maneira de viver/conviver, de ser, de perceber ou não as contradições e injustiças determinam as nossas realizações e a qualidade do conhecimento que construímos. Nossa maneira de ser, de sentir, pensar e agir, nossos valores, hábitos, atitudes e demais representações internas que permeiam as nossas relações com a realidade refletem a visão que temos de mundo (MORAES e TORRE, 2004, p.22).

Depois que todos os cenários foram construídos no tempo determinado formou-se uma mandala (figura 2) no centro da sala, sendo marcada novamente por emoções e encantamento de todos os participantes.


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  Figura 2: Mandala

A contemplação de todos os cenários construídos, jogados, nos relevou toda a beleza, a ludicidade e a subjetividade humana dos participantes. Afinal, como nos ensina Kátia Cavalcanti “a imagem é vida, é vivência. A imagem é uma presença que afeta” (CAVALCANTI, 2008, p.12).

 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A técnica do jogo de areia a princípio parece ser direcionada às crianças e adolescentes dado o seu aspecto lúdico. Todavia, seu uso com adultos, além de resgatar neles a ludicidade perdida para a racionalidade e regras sociais do cotidiano, ajuda a construir a sua autoformação humanescente, mediante a afetividade expressa nas imagens construídas.
Em sendo a atividade docente uma experiência alegre por natureza, criar um clima prazeroso em sala de aula humanescendo as relações, certamente favorecerá à aprendizagem. Desse modo, o jogo de areia pode ser utilizado como forma de auxiliar o aluno na construção do conhecimento, visto que “o jogo está na gênese do pensamento da descoberta de si mesmo, da possibilidade de experimentar, de criar e de transformar o mundo” (SANTOS, 1997, p.9).
Indubitavelmente cada ser humano possui uma forma ímpar de interpretar o mundo, de acordo com suas possibilidades de percepção, de maneira que querer admitir apenas uma forma de interpretação – a linguagem escrita/falada, por exemplo – revela uma ignorância disfarçada, pois, sob o pretexto de saber, ignora que existam outras formas de conhecer, de interpretar, igualmente válidas.

A ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão. O desenvolvimento do aspecto lúdico facilita a aprendizagem, o desenvolvimento pessoal, social e cultural, colabora para uma boa saúde mental, prepara para um interior fértil, facilita os processos de socialização, comunicação e construção do conhecimento (SANTOS, 1997, p.12).

Nesse sentido, é imprescindível que busquemos, além da linguagem escrita/falada, outra(s) percepção(ões) para a interpretação da realidade, já que os problemas enfrentados atualmente, que põem em risco a própria existência da espécie humana, devem-se à ruptura do homem a natureza.
Decerto, a cultura dominante imposta aos seres humanos acaba por aniquilar sua autopoiese, sua forma autônoma de ver o mundo. Enquanto os homens buscam a competitividade, sem levar em conta que na vida existem diversos valores e interpretações que não se ajustam às regras da competição, que simplesmente são descartados da sociedade pelo fato de não se adequarem ao jogo, esquecem-se de que melhor do que ter é ser.
Por isso, o jogo de areia pode, efetivamente, contribuir para o nosso querer bem na vida profissional, para a nossa autoformação humanescente, para o resgate da autopoiese, para o nosso interagir com o outro e com o ambiente, enfim, para contemplar o lazer e a vida com mais beleza.
 

                                                              REFERÊNCIAS

BAZHUNI, Natasha Frias Nahim, SANT'ANNA, Paulo Afrânio. O jogo de areia no atendimento psicológico de paciente com membro inferior amputado. Psicol. teor. prat. V.8, n.2, São Paulo: dez. 2006, p.86-101.
Disponível em: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872006000200006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 28.09.2009
CAVALCANTI, Katia Brandão. Jogo de areia e transdisciplinaridade: desenvolvendo abordagens ludopoiéticas para a educação e a pesquisa do lazer. Licere, Belo Horizonte, v.11, n.3, dez./2008. Disponível em: <http://redesocial.unifreire.org/katiabrandao/jogo-de-areia-e-transdisciplinaridade-desenvolvendo-abordagens-ludopoieticas-para-a-educacao-e-a-pesquisa-do-lazer>. Acesso em: 16.09.2009.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 39. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (Coleção leitura).
LEVY, Edna G., HORSCHUTZ, Renata W. Jogo de areia – Sandplay. Disponível em: <http://www.jogodeareia.com.br/home.html> Acesso em 28.09.2009.
MACHADO, Melissa Migliori, et al. O jogo de areia: um estudo sobre indicadores de resistência ao instrumento. Boletim de Iniciação Científica em Psicologia – 2001, 2(1): 92-104. Disponível em:
<http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/CCBS/Cursos/Psicologia/boletins/2/6_o_jogo_de_areia.pdf>. Acesso em: 19.09.2009.
MORAES, M.C., TORRE, S. de la. Sentirpensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
SANTOS, Santa Marli P. dos (Org.). O lúdico na formação do educador. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
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