terça-feira, julho 30, 2013

A intervenção psicopedagógica na aquisição da linguagem escrita da criança autista

A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA
Rose-Anne Holanda e Andréa Aires Costa

RESUMO 
A intervenção psicopedagógica na aquisição da linguagem escrita pela criança autista é um tema de relevância, pois seu estudo propõe a identificação de estratégias, técnicas e metodologias que podem ser utilizadas pelo psicopedagogo para favorecer a aprendizagem de uma criança autista. Para a construção do presente artigo foram realizadas leituras acerca do autismo, bem como do processo de aquisição da linguagem escrita e da aprendizagem da criança autista. A partir das pesquisas realizadas, foi possível perceber que os métodos que o psicopedagogo pode utilizar para que uma criança autista adquira a linguagem escrita podem ser os mesmos utilizados com as demais crianças, fazendo-se apenas adaptações.

1-INTRODUÇÃO 

O interesse pelo tema “A intervenção psicopedagógica na aquisição da linguagem escrita da criança autista” surgiu como tentativa de suprir a lacuna existente entre a vida escolar regular e a criança autista, tentando possibilitar a esta criança a aquisição da leitura e da escrita e a inserção na sociedade moderna, a fim de que ela possa pensar e adquirir sua autonomia como cidadã brasileira.

A criança com sintomas de autismo, quando diagnosticada tardiamente, pode não se desenvolver cognitivamente de maneira satisfatória, mostrando dificuldades na aquisição da linguagem escrita, bem como na de outras habilidades. De acordo com essa perspectiva, faz-se a reflexão quanto à contribuição da intervenção psicopedagógica na aquisição da linguagem escrita pela criança autista e à forma como essa intervenção poderia ser realizada.

O presente artigo objetivou então reconhecer a contribuição da intervenção psicopedagógica na aquisição da linguagem escrita pela criança autista, bem como as formas e estratégias a serem utilizadas. As hipóteses levantadas para o estudo em questão foram se uma criança autista conseguiria aprender a ler e a escrever sendo utilizadas as mesmas estratégias que as demais crianças; se haveria algum método e/ou teoria que iria favorecer e facilitar a aquisição da linguagem escrita por essa criança; se existiriam atividades psicopedagógicas apropriadas para as crianças que apresentassem esses sintomas e se seria necessário criar e desenvolver estratégias psicopedagógicas como alternativa para que a criança autista conseguisse adquirir a linguagem escrita, bem como utilizá-la em seu dia-a-dia.

Para a concretização da presente pesquisa, foram realizadas leituras acerca do autismo, bem como do processo de aquisição da linguagem escrita e do mesmo processo com a criança autista. Como ferramentas, foram utilizadas a pesquisa bibliográfica, com a seleção e organização das fontes por meio de fichas de leitura e a busca de autores entre os selecionados para exploração mais profunda (seleção da seleção).

2- A IMPORTÂNCIA/FUNÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA PARA A SOCIEDADE ATUAL (PÓS-MODERNA) 

Num mundo globalizado como o que se vive, saber ler e escrever é estar e fazer parte desse mundo, pois a leitura realmente abre portas. Quando se tem o domínio da linguagem escrita, a pessoa se torna livre e independente para fazer muitas de suas escolhas futuras, sabendo analisá-las corretamente e tendo certo controle de sua vida. Agora, se o inverso ocorre, ou seja, se ocorre o desconhecimento da linguagem escrita por parte de crianças, jovens e adultos, pobres ou não, com deficiência ou não, essa pessoa fica dependente de alguém, que terá que sempre resolver algo e, querendo ou não, terá o domínio da sua vida, mesmo que de maneira simbólica.

Se para uma pessoa sem nenhuma dificuldade ou deficiência adquirir a linguagem escrita fora do período escolar adequado é ruim, já que pode lhe trazer dificuldades em sua vida, esse fato será mais prejudicial ainda se ocorrer com uma criança com algum tipo de deficiência. Essa criança já tem sua vida diferente das demais pelo fato de ter a própria deficiência e quando não consegue se incluir no sistema escolar a situação tende a piorar um pouco mais.

Normalmente, o que se vê é que os pais tentam inserir seu filho no sistema escolar; tentam fazer com que ele, ao menos, acompanhe o que as crianças da mesma idade estão estudando e, quando isso não ocorre, os pais e a própria criança podem sentir-se excluídos e, muitas vezes, desestimulados a continuar tentando.

Concorda-se com Moreira e Dias (2009, p. 1) quando mostram que: 

A inserção de crianças com deficiências educacionais em sala de aula regular esta cada vez mais constante no cotidiano escolar. Porém, apenas a presença do aluno não é suficiente para a garantia de seu aprendizado, as dificuldades vão além do diagnóstico do aluno. 

Essa exclusão real deve-se ao fato de que muitas das escolas não são inclusivas e nem estão preparadas para fazer essa inclusão que os pais desejam, pois, como citam Moreira e Dias (2009, p.1),

(...) hoje, nos deparamos com o despreparo do profissional da educação, que quando se vê frente a esta situação, não sabe o que fazer para que seu aluno aprenda. Muitos acabam deixando o aluno especial de lado, subestimando suas capacidades, com pré-conceitos de que seu aluno não conseguirá se alfabetizar.

Acrescente-se ainda que alguns dos pais de crianças com alguma deficiência desconhecem os princípios da inclusão no sistema escolar regular, que deveria fornecer um acompanhamento especializado, com o intuito de minimizar as diferenças e dificuldades existentes.
             
3-A PSICOPEDAGOGIA COMO ÁREA DE ATUAÇÃO QUE ESTUDA A APRENDIZAGEM E SUAS DIFICULDADES

De acordo com o Código de Ética da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), em seu artigo 2º, a Psicopedagogia é interdisciplinar e “utiliza recursos das várias áreas do conhecimento humano para a compreensão do ato de aprender” (ABPp, 1996) e, para tal, usa métodos e técnicas próprias. O código prevê ainda, em seu artigo 3º, que a intervenção psicopedagógica é relacionada com o processo de aprendizagem, já que, como cita em seu artigo 1º “(...) é um campo de atuação em Educação e 
Saúde que lida com o processo de aprendizagem humana (...)” (op. cit.), sendo o seu trabalho de natureza clínica e institucional, preventivo e/ou remediativo. (op. cit.). O trabalho psicopedagógico, como mostra o Código de Ética da ABPp, tem como um de seus objetivos o de “promover a aprendizagem, garantindo o bem estar das pessoas em atendimento profissional, devendo valer-se dos recursos disponíveis, incluindo a relação interprofissional”, como mostra o artigo 5º.(op. cit.)

De acordo com Vitorino (2005), o psicopedagogo é o profissional que auxilia na identificação e na resolução dos problemas no processo do aprender e está capacitado para se relacionar com as mais diferentes dificuldades de aprendizagem, que leva um bom número de alunos a fracassarem na escolar e se evadirem da mesma. O psicopedagogo detém o conhecimento científico vindo da articulação de varias áreas ligadas ao ato de aprender, cabendo a ele intervir, “visando a solução dos problemas de aprendizagem e tendo como foco o aluno ou a organização educadora (escola)”. Vitorino (2005) afirma ainda que “o psicopedagogo deve ter a consciência de observar o indivíduo como um todo”, tanto o aspecto sensório-motor, a percepção espacial como também o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático, dentre outros aspectos.

O psicopedagogo, para uma boa realização de seu trabalho, deve conviver e se relacionar bem com especialistas de outras áreas com quem possa vir a trabalhar, respeitando a sua maneira de pensar e de perceber o mundo, como prega o artigo 6º do Código. Deverá procurar manter boas relações com profissionais de diferentes categorias, percebendo quando um caso deve ser encaminhado para esse outro profissional (artigo 7º).

4-O AUTISMO COMO POSSÍVEL FATOR CAUSAL DE UMA DIFICULDADE DE APRENDIZAGEM 

O autismo é um distúrbio do desenvolvimento humano que vem sendo estudado desde a década de 40, mas ainda existem divergências e questões a serem decifradas, de acordo com Fernandes, Neves e Scaraficci (2006, p.1). De acordo ainda com esses autores, o autismo ainda surpreende pela diversidade de características que pode apresentar e pelo fato de, na maioria das vezes,
(...) a criança autista ter uma aparência totalmente normal e harmoniosa e ao mesmo tempo um perfil irregular de desenvolvimento, com habilidades impressionantes em algumas áreas, enquanto outras se encontram bastante comprometidas. (FERNANDES; NEVES; SCARAFICCI, 2006, p. 1)

Os sintomas que caracterizam o autismo são definidos por alterações presentes desde idades precoces, normalmente antes dos três anos de idade e, como afirmam Fernandes, Neves e Scaraficci (op. cit.), as áreas que se encontram com comprometimento são caracterizadas por desvios na comunicação, na interação social e no uso da imaginação. De acordo ainda com os autores, esses desvios, ao aparecerem juntos, caracterizam o autismo, sendo responsáveis por um “padrão de comportamento restrito e repetitivo, mas com condições de inteligência que podem variar do retardo mental a níveis acima da média.”.

As primeiras concepções do autismo o relacionavam a fenômenos da linha esquizofrênica, como citam Assumpção Júnior e Pimentel (2000, p. 37) mas, na década de 70, Ritvo (1976 apud ASSUMPÇÃO JUNIOR; PIMENTEL, 2000, p. 37) relaciona o autismo a um déficit cognitivo, considerando-o como um distúrbio do desenvolvimento. Burack (1992 apud ASSUMPÇÃO JUNIOR; PIMENTEL, 2000, p. 37) também reforça a ideia do déficit cognitivo, já que o autismo nos últimos anos tem sido relacionado à deficiência mental, tendo em vista que 70-86% dos autistas são deficientes mentais.

De acordo com Gillberg (1984 apud FERNANDES; NEVES; SCARAFICCI, 2006, p.2), 23% das pessoas com autismo possuem QI acima de 70, perto do normal ou bem próximo da inteligência da média, enquanto que o restante, 77%, além de possuir autismo, também possui algum retardo mental.

As causas do autismo estão relacionadas a alguma anormalidade em alguma parte do cérebro ainda não definida, e, provavelmente, de origem genética, como colocam Fernandes, Neves e Scaraficci (2006, p. 2). Os mesmos autores colocam também que o diagnóstico é realizado basicamente através da avaliação do quadro clínico, não existindo testes laboratoriais para a detecção da síndrome, por isso a importância do médico já ter experiências nesses tipos de casos.

Os mais comuns sistemas de diagnósticos do autismo existentes e citados por Fernandes, Neves e Scaraficci (2006, p. 2) são: a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde, ou o CID-10, e o Manual de Diagnóstico e Estatística de Doenças Mentais da Academia Americana de Psiquiatria, ou DSM-IV.

Tamanaha, Perissinoto e Chiari (2008, p. 298), citando o CID-10, apresentam a classificação dos Transtornos Globais do Desenvolvimento como “alterações qualitativas da interação social e modalidades de comunicação, e por um repertório de interesses e atividades restrito e estereotipado.” O predomínio desse transtorno é para o sexo masculino, cerca de 4:1. Tratando do DSM-IV, eles afirmam que o Autismo Infantil foi classificado como subcategoria dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, que se caracterizou “pelos prejuízos severos e invasivos nas áreas de interação social e repertório restrito de interesses e atividades.”.

O autismo, de acordo com Santos (2008, p. 28), não é muito comum e a maioria das pessoas não conhece o assunto, o que deixa os pais sozinhos e sem saber como agir; assim, não sabem realmente o que devem fazer para ter mais conhecimento, quem procurar e como tratar o seu filho.

5-A EDUCAÇÃO DA CRIANÇA AUTISTA / AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA

O autismo compreende a observação de um conjunto de comportamentos agrupados, os quais os principais, citados por Cunha (2009, p. 37), são “comprometimentos na comunicação, dificuldades na interação social e atividades restrito-repetitivas.”

Já é sabido por diversos autores e estudiosos, como Willians e Wright (2008 apud MOREIRA; DIAS, 2009, p.1), que “o autismo causa atraso no desenvolvimento da criança e compromete a comunicação, a linguagem, interação social, imaginação e o comportamento.” Assim, de acordo também com esses autores, “são imprescindíveis tratamentos adequados que contribuem nos progressos no desenvolvimento (...)” e ainda destacam que muito pode ser feito para ajudar essa criança em vários aspectos de sua vida.

Mesmo o diagnóstico do autismo sendo difícil, ele deve ser feito rapidamente para que uma intervenção educacional especializada seja iniciada rapidamente. Cunha (2009, p. 36) mostra também que quando ocorre um diagnóstico precoce, juntamente com um tratamento especializado e uma educação adequada, é possível propiciar uma melhor qualidade de vida aos autistas, independente do nível de gravidade desse espectro. Vale ressaltar, de acordo com Fernandes, Neves e Scaraficci (2006, p. 2), que existem vários graus do autismo e que há intervenções para cada tipo ou nível de comprometimento.

A atuação dos profissionais da escola é importante, já que casos de comportamento autístico, segundo Cunha (2009, p. 39-40), já foram percebidos primeiramente nesse ambiente. A respeito dessa importância, Coscia (2010, p.8) diz que
a escola tem importante papel na investigação diagnóstica do autismo, pois é o primeiro lugar de interação social da criança separada de seus familiares, é onde a criança vai ter maior dificuldade em se adaptar às regras sociais, tarefa muito difícil para o autista.

De acordo também com Cunha (2009, p.39-40) “na escola, deve-se utilizar o afeto e os estímulos peculiares do aluno para conduzi-lo ao aprendizado, porque na educação quem mostra o caminho é quem aprende e não quem ensina.” O autor mostra também que a observação é importante para a avaliação do grau do autismo, pois esse dado é o primeiro passo para uma educação com resultados.

É importante também, de acordo com Coscia (2010, p. 9), que “os educadores valorizem a crença de que todos os alunos poderão aprender.” Devem perceber que “ensinar os alunos com autismo significa contribuir para que avancem nos conteúdos, ou seja, garantir as condições de aprendizagem”, tão necessárias para o seu desenvolvimento.

Ao relacionar autismo com educação, deve-se perceber que o principal objetivo na educação da criança autista é o desenvolvimento de habilidades e competências que busquem a sua autonomia, bem como coloca Bereohff (1994 apud LOPES-HERRERA, 2003, p.3): “favorecer o seu bem-estar emocional e social, sem contar apenas com a exigência da aquisição de conhecimentos acadêmicos”. Ainda de acordo com Bereohff (1994 apud LOPES-HERRERA, 2003, p. 3), a escola e seus profissionais devem perceber que ensinar uma criança autista “a se comunicar e desenvolver sua capacidade de comunicação é fundamental para o sucesso de qualquer abordagem educacional, independente da linha teórica utilizada.”.

As pessoas com autismo possuem um estilo cognitivo diferenciado, que exige uma metodologia específica para ensiná-los, pois no que concerne à aprendizagem
elas processam o pensamento em imagens, têm dificuldades em mudar suas rotinas diárias, decorrentes da falta da habilidade de percepção, de compreensão e de comunicação. Portanto, precisam de ambientes estruturados e organizados para aprender. (BRASIL, 2011, p. 2)
Cunha (2009, p.40) coloca que uma criança típica aprende através de brincadeiras, com os pais, colegas e professores, pois “simplesmente vivendo ela aprende”.   Mas para uma criança autista as coisas são diferentes, pois “há uma relação diferente entre o cérebro e os sentidos e as informações nem sempre geram conhecimento.”

Cunha (2009, p. 40) mostra também que os objetos não exercem atração devido à sua função e, sim, devido ao estímulo que promovem na criança. Coloca que “a criança autista tem dificuldade para reconhecer sua utilidade, simbolizar, nomear e, por isso, passa a ter prejuízos na linguagem.” 

Diferentemente das crianças típicas, como nomeia Cunha (2009, p. 40), a criança autista necessita aprender a função e o manuseio adequado de cada objeto a ela apresentado.

Também é defendido por Cunha (2009, p. 41) que “o grande foco na educação deve estar no processo e não nos resultados, porque nem sempre eles virão de maneira rápida e como esperamos.” A educação escolar de uma criança autista deve ocorrer na sala comum e na sala de recursos com os outros alunos, mas esse indivíduo também precisa receber uma educação individualizada para que consiga mudar algum comportamento e aprender outros. O professor tem que conhecer para aprender a lidar com a realidade dos autistas, para entrar no mundo deles, pois “nessa relação, quem aprende primeiro é o professor e quem vai ensinar-lhe é o aluno.” (Ibid, p. 41)

A primeira habilidade que deverá ser desenvolvida, ainda segundo Cunha (2009, p. 42-43), é a capacidade de concentração, que é o que dificulta as demais aprendizagens. É relevante relatar que os estágios de aprendizagem não ocorrem de maneira fixa em nenhum aluno e o mesmo ocorre com a realidade do autismo, na qual o professor deverá ter “sensibilidade para conduzir todo o processo” sem esquecer-se de respeitar o ritmo de cada criança.

Para que uma criança autista se desenvolva no ambiente escolar, torna-se necessário, segundo Coscia (2010, p. 9), que “o professor utilize diferentes recursos na aprendizagem desses alunos, pois cada criança aprenderá adequando-se às suas limitações.” Para tanto, esse profissional deve buscar o maior número possível de informação, metodologias, materiais, dentre outros recursos que o auxiliem em sua caminhada.

Sabe-se que o processo de aquisição da linguagem escrita é mais do que decifrar a escrita; é perceber o que o cerca, o seu mundo, já que não se vive isolado de tudo e de todos. Sobre a leitura, Juhlin (2002 apud MOREIRA; DIAS, 2009, p.2) sinaliza que:

O ato de ler compreende desde quando a criança forma concepções a respeito da leitura e da escrita, percebe a relação existente entre a fala e a escrita, reconhecendo o seu nome, nome dos amigos da sala, palavras de propaganda, incluindo logotipos. O ato de escrever segue desde rabiscos até a escrita de pequenos textos.

Diversas são as formas de realizar essa aquisição tanto para as pessoas ditas normais quanto para as pessoas com deficiência que
em decorrência das especificidades de suas deficiências, elas aprendem os conteúdos de forma peculiar e cada uma apresenta características próprias como resposta ao trabalho pedagógico. Portanto, as diferentes deficiências geram necessidades e formas educativas especiais próprias, o que não é diferente em relação às síndromes. (BRASIL, 2011, p.1)

Sobre a alfabetização, Moreira e Dias (2009, p.1) mostram que essa possibilidade representa uma grande conquista na vida de qualquer pessoa e ainda mais na vida de uma criança autista e de sua família. Assim, como ressalta Juhlin (2002 apud MOREIRA; DIAS, 2009, p.2), “as crianças que apresentam distúrbios de comportamento, passam pelas mesmas fases da leitura e da escrita pesquisadas por Ferreiro e Teberosky (1999)”, afirmando ainda que “a aprendizagem de crianças autistas demora um tempo maior e exige muito esforço do profissional”. A mesma autora mostra que as crianças autistas apresentam dificuldade em compreender as regras em grupo, portanto, conclui-se que a aprendizagem individual será mais proveitosa para elas.

Dentre as orientações propostas por Juhlin (2002 apud MOREIRA; DIAS, 2009, p.2), para auxiliar na aquisição da leitura, têm-se “os recursos visuais, pois a utilização de materiais concretos facilita o entendimento do indivíduo autista, uma vez que ela enfrenta dificuldade de trabalhar com situações abstratas.”

Lopes e Pavelacki (2005, p. 3) citam que, além das várias técnicas existentes para a educação dos autistas, a rotina diária é muito importante e não deve ser alterada, já que qualquer modificação poderá ter reflexo na criança. Como afirma Marconato (2008, p. 16), são indispensáveis as propostas de trabalho estruturadas, pois estas favorecem a auto-organização da criança, tornando a aprendizagem algo mais fácil de ocorrer.

Lopes e Pavelacki (2005, p. 7) também mostram que a memória do autista é visual, sendo importante que o educador, no desenvolvimento de suas técnicas, enfatize esse lado, se utilizando de cores, tamanhos, espessuras etc., mas sem esquecer que a sala de aula utilizada deve ter pouca “estimulação visual”, ou seja, como ressalta Marconato (2008, p. 15), “considera-se como um ambiente especial para alunos autistas, aquele sem muitos estímulos e organizado de forma simples, ou seja, estruturado” para que a criança não mude o foco da sua atenção.

Sobre o processo de aprendizagem da leitura e da escrita por crianças autistas Juhlin (2002 apud MARCONATO, 2008, p.15) afirma que a “maneira de a escola interagir com os diferentes alunos e suas condições básicas terá um significado decisivo no que diz respeito a quanto e quais capacidades da criança serão desenvolvidas.” Dessa forma, torna-se importante a reflexão de quais seriam as melhores condições para o atendimento educacional de uma criança autista e quais as melhores metodologias a serem desenvolvidas com ela para que sua aprendizagem seja satisfatória.

6 -INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA CLÍNICA EM CASOS DE AUTISMO

Mesmo que as causas do autismo não estejam ainda bem definidas, Maciel e Garcia Filho (2009, p. 3-4) relatam que suas características e as formas de como proporcionar uma vida independente a seus portadores são bem conhecidas.  Mostram que “há muitas coisas que podem ser feitas pela pessoa autista. A principal é acreditar que tem potencial para aprender.” É preciso que se perceba que algumas pessoas autistas têm condição de viver e de interagir com o mundo em que vivem, mesmo que de um modo diferente dos não-autistas. A autora lembra ainda que “devido à sua dificuldade em se comunicar, podem ter um desempenho fraco na escola.” Essa situação poderá ser resolvida ou amenizada com o envolvimento dos profissionais que trabalham com essa criança na escola e fora dela, desde que com a interação dos objetivos e estratégias utilizadas pelos mesmos.

Coscia (2010, p. 9) coloca que “é preciso garantir condições de aprendizagem com boa qualidade para todos, o que significa fazer adaptações pedagógicas, definir o planejamento para que o aluno com distúrbio global de desenvolvimento não seja excluído da sala de aula.” Coscia (2010, p. 19) também ressalta que a criança autista, como qualquer outra criança, pode aprender, porém “faz-se necessária a utilização de técnicas e intervenções que facilitem esse processo, considerando as características e especificidades do modo de ser e estar no mundo dessa criança”, o que confirma o fato de que o psicopedagogo, assim como os demais profissionais que trabalham com crianças autistas, deve ter em mente que não existe um tratamento único e específico. Como coloca Santos (2008, p. 22), “qualquer método usado pode funcionar muito para uma criança e nem tanto para outra”, já que cada criança pode estar em nível de desenvolvimento diferente, tendo habilidades e capacidades diferentes. Esses fatores, dentre outros, fazem com que o profissional especializado busque conhecer bem a criança com que vai trabalhar para que escolha o tratamento e metodologias adequadas para aquele caso, especificamente.

O trabalho do psicopedagogo deve ser realizado em comum acordo com profissionais de outras áreas, para que, juntos, possam combinar e programar o tipo de tratamento que será realizado para melhorar a vida do autista. Também é importante haver a valorização do trabalho do psicopedagogo, pois o mesmo busca amenizar as dificuldades de aprendizagem causadas pelo autismo, buscando técnicas e alternativas que serão utilizadas para o desenvolvimento da educação dos autistas, bem como para a aquisição da linguagem escrita pelos mesmos.

Esse trabalho desenvolvido pelo psicopedagogo facilitará também o dia-a-dia da criança na escola regular, já que ele conhece melhor a criança e levará para a escola uma adaptação do currículo que possa atender melhor uma criança autista, podendo haver realmente a inclusão da mesma no sistema regular de ensino. De acordo com Carvalho e Cuzin (2008 apud RAMOS, 2010, p. 6), “o psicopedagogo deve trabalhar visando sempre à minimização das limitações e a maximização das potencialidades do sujeito inserido no sistema”. Daí vem a importância desse profissional conhecer bem a criança com que está trabalhando, pois segundo ainda Carvalho e Cuzin (2008 apud RAMOS, 2010, p. 6), o psicopedagogo é o responsável por conciliar as situações que surgem no processo de ensino-aprendizagem de uma criança autista. Ele pode intervir com os profissionais da escola orientando-os a como se comunicarem melhor com o autista e dar suporte para a família, que muitas vezes não sabe como agir com o filho autista.

O psicopedagogo deve ter consciência de seu papel e responsabilidade profissional e social e acima de tudo deve respeitar, prezar e zelar por cada vida que for colocada sob seus cuidados, lembrando sempre que cada ser é único e que cada um possui singularidades que precisam ser respeitadas e que são estas diferenças que dão significado à vida (RAMOS, 2010, p. 7).

Além da sua sensibilidade, o profissional especializado deverá se utilizar de diversos recursos para que possa atingir o objetivo pretendido: alfabetizar uma criança autista, pois, de acordo com Szatmari (1991 apud LOPES-HERRERA, 2003, p. 8), entre as crianças autistas, “há uma aparente dificuldade em decodificar o código gráfico, mas tendem a desenvolver leitura e escrita em idade escolar.”

As características relacionadas ao autismo exigem uma metodologia específica para ensiná-los, mas não se podem excluir os métodos convencionais utilizados para alfabetizar crianças não autistas. O computador é uma técnica para se alfabetizar uma pessoa autista e poderá ser utilizada como ferramenta pelo psicopedagogo, já que “dispõe de recursos como animação, som, efeitos especiais, tornando o material mais interessante e atrativo para todas as pessoas, não só para aquelas com algum tipo de deficiência ou com autismo.” Mas mesmo assim não se deve esquecer o aspecto negativo do trabalho com o computador, que seria um isolamento ainda maior dessa criança. (BRASIL, 2011, p. 2)

Como mostram os estudos feitos por Juhlin (2002 apud MARCONATO, 2008, p. 24- 25), baseados na teoria da epistemologia genética de Jean Piaget e nas obras de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, uma criança autista passa pelas mesmas fases de leitura e escrita descritas pela teoria citada, como também “aprendem a ler e escrever da mesma maneira como as outras fazem, de acordo com o nível em que se encontram em seu desenvolvimento cognitivo.”

Marconato (2008, p. 28) também cita outros procedimentos metodológicos utilizados por Juhlin (2002 apud MARCONATO, 2008, p. 24-25) para alfabetizar crianças autistas, como: “a música, pintura, recorte, colagem, dança dramatização, modelagem, RelationPlay (método criado por verônica Sherborne que pretende o autoconhecimento pelo ensino do movimento consciente), estimulação tátil, ensino o mais concreto possível e outras”. Alguns desses procedimentos podem ser utilizados pelo psicopedagogo, fora outros métodos e técnicas que venham a surgir no decorrer dos encontros com a criança autista, já que são muitos os procedimentos a serem utilizados para que essa aquisição da linguagem escrita ocorra como esperado.

Conforme coloca Santos (2008, p. 31), “o ensino é o principal objetivo do trabalho com crianças autistas”. A partir desse ensino, a criança autista se tornará menos dependente e, mesmo que a aprendizagem demore e ocorra lentamente, é importante a continuidade e persistência em prosseguir com esse trabalho, pois só assim existirá a possibilidade da integração e inclusão dessa criança na sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para que uma pessoa se sinta inserida na sociedade da qual faz parte, é necessário que tenha instrumentos que a deixem equiparada às outras pessoas, mesmo que seja diferente (lembrando que ninguém é igual). A aquisição da linguagem escrita é algo extremamente importante para qualquer pessoa, pois faz com que ela se torne independente, ou, no mínimo, menos dependente de outras pessoas para a realização de atividades consideradas simples em seu dia-a-dia.

A pessoa autista, assim como qualquer outra pessoa, deve e pode estar inserida na sociedade da qual faz parte, principalmente quando o seu diagnóstico e tratamento são feitos o mais cedo possível. Estudos e leituras mostram que existem vários níveis de autismo e que o tratamento não fará com que se deixe de ser autista, “já que o autismo não cura, o que ocorre é uma melhora significativa, principalmente com incentivo da educação” (BONORA, 2010, p. 5). O autista necessitará de atenção e supervisão a vida toda, mas o tratamento especializado fará com que se possa minimizar os sintomas clássicos e fazer com que o portador dessa síndrome possa fazer realmente parte do mundo em que vive.

Como a criança autista precisa de um atendimento individualizado, o que nem sempre é possível na escola, o psicopedagogo pode contribuir com o seu trabalho, elaborando um programa individualizado e diversificado para atender crianças autistas e, ao mesmo tempo, levar esse programa para ser inserido no currículo formal da escola, sem necessariamente alterar o programa já elaborado pela escola. Mas, de acordo com Bonora (2010, p. 7), esse trabalho ainda é pouco utilizado devido à diversidade de dificuldades existentes em cada criança autista.

A partir das leituras realizadas, percebeu-se que a criança autista passa pelas mesmas etapas de desenvolvimento que as demais crianças e que a grande diferença é que elas demoram mais tempo para passar de uma etapa para outra. Assim, os métodos para que ocorra a aquisição da linguagem escrita podem ser os mesmos utilizados com as demais crianças, fazendo-se as adaptações necessárias no currículo formal, privilegiando a rotina tão importante para essas pessoas.

A partir dessa pesquisa, pode-se perceber que o campo de pesquisa sobre a atuação do psicopedagogo na educação da criança autista, principalmente na aquisição da linguagem escrita, ainda é um campo vasto para se realizar pesquisas, já que o universo de seu trabalho é amplo, podendo trabalhar com a criança, com a família e com e na própria escola, oferecendo subsídios para que a inclusão dessa criança na escola e na sociedade seja a mais completa que for possível.
Finaliza-se esse artigo com um pensamento de Bonora (2010, p. 25) que traduz o que se pensa sobre a atuação do psicopedagogo junto à criança autista:

O universo autista é complexo, mas atender e planejar uma ação adaptativa para o autista requer do psicopedagogo não apenas preencher uma lacuna na tentativa de compreender este universo, mas criar pontes para que pessoas com transtorno do espectro autístico seja reconhecida não como indivíduo especial, mas como cidadão que assim como todos nós temos nossas singularidades e complexidades e que merecem ser respeitadas.

Conclui-se que a intervenção psicopedagógica é de grande relevância, pois além de facilitar a aquisição da leitura e da escrita pela criança autista, possibilita que ela se torne mais independente e auxilia em sua inserção na sociedade em que vive, ou seja, no reconhecimento do respeito que merece ter como cidadão.
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