terça-feira, novembro 06, 2012

A INSTITUIÇÃO ESCOLAR E O PAPEL DO PSICOPEDAGOGO


A escola é sem dúvida, a principal responsável pelo grande número de crianças encaminhadas aos consultórios psicopedagógicos por problemas de aprendizagem, pois a família na maioria das vezes não tem o suficiente conhecimento para detectar tais dificuldades. A família pode achar que alguma coisa não vai bem com a criança, mas é a escola que orienta neste sentido. A escola evidencia e denuncia essas disfunções, mas não tem condições ela mesma de resolver esse problema.

Cabe, portanto, à psicopedagogia contribuir, seja no sentido de promover a aprendizagem ou mesmo tratar dessas dificuldades, nesses processos instalados, muitas vezes, na própria instituição, a qual cumpre uma importante função social: a de socializar os conhecimentos disponíveis, promover o desenvolvimento cognitivo e a construção de regras de conduta, dentro de um projeto social mais amplo.

Sabemos que é nas relações entre os indivíduos que se forma o cidadão, e que é através da aprendizagem que a pessoa é inserida, de forma mais organizada, no mundo cultural e simbólico. É a sociedade então, que outorga à escola o papel de mediadora nesse processo de inserção no organismo do mundo, sendo ela a responsável por grande parte dessa aprendizagem.

Cada sujeito tem uma história pessoal, da qual fazem parte várias histórias: a familiar, a escolar, o clube e outras, que articuladas, atuam na formação do indivíduo. A escola tem, portanto, um papel importante na formação deste sujeito depois da família e que tanto uma quanto a outra podem contribuir para a formação de algumas dificuldades de aprendizagem que são tratadas em escolas paralelas.

A Psicopedagogia, na instituição escolar, tem uma função complexa e por isso provoca algumas distorções conceituais quanto às atividades desenvolvidas pelo Psicopedagogo. Ela dedica-se a áreas relacionadas ao planejamento educacional e assessoramento pedagógico, colabora com planos educacionais e sanitários no âmbito das organizações, atuando numa modalidade cujo caráter é clínico institucional, ou seja, realizando diagnóstico institucional e propostas operacionais pertinentes.

O campo de atuação até então discreto, pode ser classificado também como da modalidade preventiva muito amplo e complexo, mas pouco explorado. Sobre o trabalho psicopedagógico na escola muito há o que fazer. Como vimos acima grande parte da aprendizagem ocorre dentro da instituição escolar, nas relações estabelecidas entre o professor e o aluno, entre professores, entre currículo, programas e conteúdos, e com o grupo social escolar enquanto um todo, é por isso que se propõe uma visão embasada no modelo sistêmico, onde as relações têm grande relevância.

Pensar a escola à luz da Psicopedagogia é vê-la como num caleidoscópio, multifacetado. Significa analisar um processo que inclui questões metodológicas, relacionais e socioculturais, englobando o ponto de vista de quem ensina e de quem aprende, abrangendo a participação da família e da sociedade.

Pretendo pontuar aqui minha grande preocupação com os psicopedagogos institucionais atuais que se sentem muitas vezes perdidos com relação à sua função e ao seu papel dentro da escola. Acredito que seu olhar e sua escuta devem estar voltados não só para o compromisso com a escola e com os seus elementos, no caso específico o professor e o aluno, mas que eles também devem incluir neste processo a família e a comunidade que também interferem na aprendizagem assim como estão também incluídos aqueles que decidem sobre as necessidades e prioridades da escola.

Penso que na realidade o Psicopedagogo Institucional deveria se preocupar em detectar as possíveis fraturas do ensinar e do aprender como um todo e propor novas maneiras de ensinar para melhor aprender.
Ao entrar na escola, a criança se depara com um meio com o qual não está habituada: outras crianças, os horários, o professor e o aprender sistemático. Do professor, um profissional da educação, supõe-se que tenha escolhido esta profissão, ensinar o que sabe, e que para tal esteja preparado com técnicas, métodos e estratégias, para que o saber se socialize. Mas as motivações que o levaram a eleger essa tarefa podem ser muito variadas e isso vai determinar a forma de vínculo com seus alunos.

Na sua função clínica-preventiva, após diagnóstico apurado da instituição, cabe ao psicopedagogo:
- detectar possíveis perturbações entre o processo de ensino e aprendizagem;- participar da dinâmica das relações da comunidade educativa, afim de favorecer processos de integração e troca;- promover orientações metodológicas de acordo com as características dos indivíduos e grupos;
- realizar processos de atualização pedagógica para professores dentro deum programa de Educação Continuada.
- rever currículos e programas através de uma visão crítica, entre outras atividades.

Dentro da instituição escolar esta função se confunde com outros profissionais da área de Educação e se mostra ainda muito ampla.

Como a Psicopedagogia nasceu para atender a patologia da aprendizagem, ela se tem mostrado cada vez mais eficiente para uma atuação clínica-preventiva, pois muitas das dificuldades de aprendizagem se deve à inadequada Metodologia utilizada na escola e aos problemas familiares.

Numa ação clínica-institucional, o psicopedagogo deve adotar uma postura crítica frente ao fracasso escolar visando propor novas alternativas de ação voltadas para a prática pedagógica nas escolas.

O campo de atuação do Psicopedagogo Institucional refere-se não só ao espaço físico onde se dá esse trabalho, mas especificamente ao espaço epistemológico que lhe cabe, ou seja, o lugar deste campo de atividade e o modo de abordar o seu objeto de estudo.

A forma de abordar o objeto de estudo pode assumir características específicas, dependendo da modalidade: clínica clássica, clínica preventiva institucional e teórica, umas articulando-se às outras. Quero esclarecer que para mim trabalho clínico não deixa de ser preventivo, uma vez que, ao tratar alguns transtornos de aprendizagem, pode evitar o aparecimento de outros. O trabalho preventivo, numa abordagem psicopedagógica, é sempre clínico, levando em conta a singularidade de cada processo. Essas duas formas de atuação, por sua vez, não deixam de resultar num trabalho teórico. Tanto na prática preventiva como na clínica, o profissional, como já vimos anteriormente, procede sempre embasado no referencial teórico adotado.

Na escola algumas das funções do Psicopedagogo são:- de assessoria (ouvidor e falador sobre a escola) é uma visão de articulador entre os elementos do sistema;- de apoio pedagógico - auxiliar o coordenador pedagógico na elaboração dos conteúdos e nas estratégias didáticas, assim como dar assistência ao corpo docente orientando-o quanto às dificuldades encontradas pelo professor e pelos alunos nas modalidades de ensino e aprendizagem em sala de aula.No campo da aprendizagem específica do aluno:- reduzir a freqüência dos distúrbios de aprendizagem,- reduzir a duração das dificuldades de aprendizagem diagnosticando precocemente;- reduzir as seqüelas e deteriorações (reabilitação);- de assistência familiar: - com pais na compreensão sobre a modalidade de aprendizagem de seu filho e como esta circula na família;- qual é a modalidade de aprendizagem da família, ou seja, a maneira como ela aprende as coisas do mundo;- com famílias disfuncionais (ex.: famílias simbióticas, persecutórias, etc.)- de trabalho com os elementos da própria instituição: - promovendo o trabalho em equipe;- incentivando o desenvolvimento profissional e pessoal;- observando e diagnosticando como a modalidade de ensino e aprendizagem circula no grupo e individualmente para orientar o seu trabalho psicopedagógico com os profissionais da educação e com os alunos.- sensibilizando todos os elementos envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem para uma melhoria na qualidade do relacionamento mútuo (ensino-aprendizagem, professor-aluno, aluno-aluno, professor-pessoal técnico e administrativo, etc.)

Sua função, portanto, é abrangente e complexa, pois envolve o diagnóstico da instituição e a atuação na estagnação da escola e de seus elementos em diferentes níveis.

Considerações Finais
Não é minha intenção dar por concluída minha reflexão sobre este tema, porém, ouso sugerir para finalizar algumas conclusões parciais que encontrei na minha prática.

O despreparo dos educadores para lidar com os aspectos afetivos do processo de aprendizagem tem a possibilidade de acarretar distorções na concepção sobre este processo dificultando a realização de um trabalho mais efetivo com os alunos.

Precisamos ainda compreender que nenhuma teoria ou corrente tomada isoladamente pode dar conta do processo educativo e que este trabalho envolve uma multiplicidade de fatores complexos nos quais inúmeras ciências tem importantes colaborações a nos dar.

Uma ação psicopedagógica institucional deverá compreender não só as determinantes fundamentais dos problemas de aprendizagem, mas também o modo específico dessas determinantes agindo nas suas peculiaridades. Devemos estar capacitados para unir a compreensão teórica à ação real com vistas a uma transformação.

Para que ocorra uma ação verdadeiramente transformadora, é necessário ainda abrir mão de posturas educacionais radicais, e abraçar propostas nas quais as denúncias e críticas ao sistema educacional cedam lugar a um trabalho consistente e articulado, que defina o papel das diferentes ciências em relação à educação e considere o ser humano em toda a sua amplitude, em toda a sua dimensão.

Para que isso ocorra, nós, psicopedagogos, precisaríamos adotar algumas atitudes frente ao nosso trabalho. 
Atitudes como a humildade, a espera, a generosidade, a gratidão, o olhar e a escuta. Atitudes que permeadas por um cuidadoso critério, de um apurado rigor científico e embasamento teórico poderão nos auxiliar a executar nosso trabalho com mais segurança e assertiva.

Fonte: http://www.saopauloabpp.com.br/abpp.php?menu=artigos#
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