domingo, agosto 28, 2011

Para Refletir...


Prólogo
(...ou, o começo de tudo é sempre o começo)
Era uma vez, no Paraíso, em algum lugar do passado,
a "Mãe-Deus "e duas filhas: Mara e Maria.
Lá, havia um portão rabiscado.
Um dia, "Mãe-Deus” perguntou:
- Este portão, quem de vocês rabiscou?
Mara, prontamente, respondeu:
- Foi Maria, mamãe, não fui eu!
Nesse instante, a verdade terrível apareceu:
Maria conheceu que a mãe não era Deus.
Ela não via que Mara mentia,
não lia pensamentos.
Ela não sabia...
E se a mãe não sabia,
Maria, sua imagem e semelhança,
pensamentos também não leria.
Então, Maria fez seu o desejo da Sabedoria.
Tinha cinco anos:
foi expulsa do paraíso nesse dia para crescer,
ler, dividir-se e multiplicar.
A primeira professora mostrou o livro a Maria,
um livro de sabedoria.
"Ah! Agora sim conheceria!", pensou Maria.
Ao final da primeira lição, guardado o livro,
Maria, triste, foi embora sem nada, de mãos vazias.
Ela não lia...
Chorou muito...
O medo de morrer começou naquele dia.
O tempo passando, Maria crescia.
Aprendeu a ler, escrever...
Aprendeu história e geografia.
Lia livros, muitos, o tempo todo,
mas pensamentos ela não lia.
E por não ler pensamentos, sofria...
O medo de morrer persistia.
A mãe, que não era Deus, lhe dizia:
- Quando o medo vier, não sofra, escreva,
coloque no papel, mas guarde bem, é seu segredo.
E assim Maria fazia,
seus pensamentos escrevia e de todos escondia.
Maria crescendo, se fez professora,
ensinava a ler e escrever as criancinhas,
não mostrava o livro,
não mostrava que tudo sabia,
pois com aquelas crianças aprendia...
Quando ensinava, percebia.
No meio das letras, nas entrelinhas das escritas,
o pensamento das crianças aparecia
como um grito cujo som não se ouvia.
Um dia, ouviu falar numa terra distante
onde se ensinava a escuta do som que não se ouvia,
se aprendia a mirada daquilo que não se lia.
Lá, Alicia vivia.
E com ela, aprendentes estudavam a Psicopedagogia.
Maria foi em busca,
acreditando que aprenderia
a não temer mais a morte,
a resgatar a plenitude da vida e da alegria,
encontrando a Sabedoria querida,
no pensamento do outro, que ela não lia.
Triste ilusão, mais esta!
Os anos se passaram, Maria percebia:
as Psicopedagogas eram iguais a ela - Alicia também não lia.
Caminhando mais uma estrada de ilusão,
Maria resolveu tornar-se Doutora em Psicologia
(ouvira que os verdadeiros sábios eram Doutores
e viviam nas Academias...)
Estudou muito - pesquisou, sofreu, escreveu.
Apresentou tese, julgada por doutoras - competentes
e exigentes.
Espanto! Entre unânimes louvores,
Maria, aclamada sábia,
tornou-se Doutora em Psicologia.
Desfeita mais esta ilusão,
Maria ainda não compreendia, continuava
a mesma, nada mudara, ela ainda não sabia...
Um dia, aconteceu !
Em um segundo fatídico morria a ilusão do tudo saber lá fora,
no outro, no livro, na academia...
E ao mesmo tempo a cruzada de ilusões conformava
a sua Autoria.
Maria - Professora,
Psicopedagoga, Doutora - mais do que tudo,
mais do que ler pensamentos, tornara-se Autora.
Agora ela pode ser, incompletamente,
transitoriamente, profundamente,
maravilhosamente, 
incoerentemente Sábia,
sendo apenas ela mesma,
Maria...
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